Esse é o segundo artigo da série sobre gamificação. Leia o primeiro.

Seguindo a nossa série sobre gamificação, nesse artigo iremos falar do conceito e algumas aplicações práticas dessa ferramenta. A gamificação é o processo de utilização do pensamento, dinâmica e elementos de jogos para o engajamento de pessoas na resolução de problemas. Ou seja, é a utilização de técnicas de games para tornar as atividades mais divertidas e promover a aprendizagem.

É a construção de um sistema no qual os jogadores, aprendizes ou consumidores se engajam em desafios abstratos que possuem regras claras. Esse sistema também tem o objetivo de interagir e aceitar feedbacks para que se alcancem resultados quantificáveis. Além disso, tudo isso conta com a presença de reações emocionais.

Para Gartner, gamificação é o uso do design de experiências digitais e das mecânicas de jogos com o objetivo de alcançar seus objetivos. Tem como proposta a criação de situações que sejam realmente envolventes e que, principalmente, motivem as pessoas a investirem seu tempo e energia nos desafios apresentados.

A gamificação deve trazer à tona o desejo de colaborar e compartilhar experiências. Através dela as pessoas podem desenvolver habilidades, alterar comportamentos e aprimorar saberes e conhecimentos, ou seja, vai muito além do auxílio da criatividade e da inovação.

Não espere que a gamificação seja:

  • Uma receita de bolo.
  • A simples transformação de atividades em games.
  • A utilização de simuladores para treinamentos.
  • Um mundo imaginário onde tudo é possível.
  • O uso de elementos como pontuação, níveis e fases sem propósito ou objetivos declarados. Isso se chama a “fadiga de placar”.
  • Uma caixa de ferramentas em que qualquer atividade ou tarefa pode ser gamificada.
  • O objetivo pelo qual as pessoas irão se engajar.
  • Uma limitação sobre o estudo de como os jogos funcionam.

Mas e aí, por que gamificar?

Nem sempre encontraremos na gamificação uma solução pronta para melhorar todas as atividades, tarefas ou até formatos de cursos. No entanto, já percebemos que, para determinadas ações, certos elementos dos jogos impulsionam mudanças de comportamento, auxiliam na aprendizagem, além de ser um jeito mais divertido e engajador de resolver problemas.

Outro ponto importante que também queremos ressaltar é a compreensão de que a gamificação é uma parte do processo e não ele como um todo. Escolha pontos estratégicos onde é possível gamificar e não transforme, simplesmente, tudo em um jogo.

Também precisamos ter em mente que existem dois tipos de gamificação: estrutural e de conteúdo. É difícil gamificar em todos os níveis com qualidade, por isso devemos escolher entre as duas opções:

Gamificação estrutural: está relacionado com a forma como conduzimos os jogadores ou aprendizes pelos processos da atividade. Nessa opção, os elementos do game estão ao entorno dos conteúdos propostos.

Gamificação de conteúdo: quando os elementos do game são organizados para alterar a produção dos conteúdos.

Entenda seu público-alvo

Quando pensamos o nosso game ou processo de gamificação precisamos ter em mente, principalmente, qual será o nosso público e quais objetivos queremos que eles alcancem. Para isso, é crucial compreender como os jogadores aprendem e quais são os seus perfis.

Estilo de aprendizagem
Os formatos de aprendizado mais conhecidos são: visual, auditivo e cinestésico; o fato é que nós não aprendemos da mesma forma. Algumas pessoas funcionam melhor visualmente, como o meu caso, outras são mais auditivas e, ainda, existem os cinestésicos, que têm a necessidade de experimentar, tocar e sentir.

Isso também não significa que cada pessoa aprende especificamente de um jeito, é possível combinar todos os estilos e, principalmente, pensar em uma experiência que atinja o cérebro na sua completude.

Estilo de jogador
O próximo passo é ter em mente que existem, também, alguns tipos de jogadores. Quando pensamos nele, temos que entender quais são seus gostos: se interessam por esportes? Jogos de aventura? Estratégia? Gostam de séries e filmes ou preferem ler um livro?

Além disso, entender suas motivações contribui muito para a construção de um processo gamificado. Pensando nisso, uma outra forma de dividir os jogadores é através desses quatro blocos: competitivos, exploradores, colaboradores e curiosos. Eles são motivados por objetivos distintos quando estão jogando e se mantém engajados dessa maneira.

Na imagem abaixo é possível visualizar como estão organizados e quais são seus principais objetivos em um jogo.

Crédito: Livro "Gamification: como criar experiências de aprendizagem engajadoras"

COMPETIDORES:

  • São mais individualistas.
  • Não se importam em passar por cima dos outros ou matar personagens que obstruem seu caminho.
  • Preferem não socializar para focar em manter seu ranking alto e ganhar maior número de pontos.
  • Querem estar à frente de todos e serem reconhecidos por isso.

EXPLORADORES:

  • Estão mais interessados no conteúdo do jogo, como a coleta de objetos, badges ou outros utensílios raros.
  • Não se importam em socializar e até gostam de ensinar os outros o que sabem do jogo.
  • Não estão focados no fim do jogo e sim em compreender toda sua história e possibilidades.

COLABORADORES:

  • Gostam de socializar, ter rankings compartilhados para ver em que nível seus amigos estão.
  • Normalmente não são competitivos.
  • Não gostam de destruir os outros, preferem ser altruístas.
  • A maior parte dos jogadores se enquadra nessa opção.

CURIOSOS:

  • Gostam de personalizar e criar coisas dentro do jogo.
  • Socializam para trocar itens, informações e pertences.
  • Não estão focados em ganhar o jogo, querem entender as possibilidades e o que eles podem coletar do game, assim como os exploradores.

Primeiros passos para aplicar a gamificação no EAD

“gamificação como estratégia de aprendizagem é uma forma interativa e divertida para o alcance de um objetivo específico e mensurável, portanto o desenvolvimento de uma solução de aprendizagem gamificada, de um programa de treinamento ou de uma aula deve começar pelo mesmo ponto de partida, definindo objetivos e estratégias para a medição do resultado e seguir o fluxo completo até que a aprendizagem seja transferida para o local de trabalho e possa gerar o impacto esperado no negócio”
Fonte: Gamification - como criar experiências de aprendizagem engajadoras

Quando focamos na aprendizagem através da gamificação, precisamos pensar no tipo de vivência que os alunos irão experienciar para que ela seja engajadora e mantenha os alunos focados e motivados. Além disso, mais do que divertida, essa prática deve ser capaz de impactar positivamente e melhorar sua performance. A aprendizagem é uma mudança permanente no comportamento resultante das experiências vividas.

Pense nos elementos do game como um mundo de opções. Analise seu cenário, potenciais alunos e jogadores e aposte em um design instrucional de qualidade. Além disso, invista tempo para estudo e escolha de metodologias, tendo em mente sempre os seus alunos visuais, auditivos e cinestésicos: foque em diferentes estilos de aprendizagem.

Lembre que a atividade precisa ser motivada por ela própria e não por recompensas ou punições. O aluno precisa buscar sua motivação interna e não se basear apenas pela externa. Para isso, há três elementos que auxiliam: desafio, fantasia e curiosidade.

Desafio: Deve haver metas alcançáveis e, ao mesmo tempo, incerteza quanto ao resultado. Além disso, o jogador deve saber como está avançando no jogo, ou seja, isso envolve feedback.

Fantasia: Ter a possibilidade de estar em outro mundo ou ser outra pessoa, isto é, tudo aquilo que não é real, é um dos principais fatores que levam as pessoas a jogarem games de variados estilos.

Curiosidade: Desperte o interesse pela atividade através da curiosidade pelo ambiente, pelos desafios, recompensas e, principalmente, pelo que virá pela frente.

Invista nesses 3 pontos para manter o engajamento e proporcionar uma gamificação real e única para seus alunos.

Indicamos, também, que pense em seu planejamento de aula e esboce um roteiro, assim fica mais fácil identificar os momentos em que a gamificação se encaixa e os que ela não é necessária. De início, responda essas perguntas:

  • Qual o objetivo da aula ou curso?
  • Quem são e quais os estilos dos meus jogadores/alunos?
  • Eles conseguirão compreender minha proposta de gamificação?
  • Que metodologias serão usadas?
  • Quais serão as principais tarefas?
  • Que comportamentos você espera que seus alunos tenham na realização das tarefas?
  • Como você pretende realizar os feedbacks?
  • De forma você irá mensurar os resultados?

Lembre-se de assegurar a presença da diversão, estabelecer um conjunto de elementos dos games que façam sentido para o seu curso/aula e, principalmente, para seus alunos/jogadores. Acima de tudo, não tenha medo de errar. Faça protótipos e os aplique em pequena escala para estudar e compreender seus resultados.

Não há um passo a passo para aplicar a gamificação de forma efetiva. Se você pretende se aventurar e experimentar, sugerimos que inicie colocando poucos elementos, não é recomendável gamificar tudo de uma vez. Além disso, não ache que não há como aplicar a gamificação através do seu ambiente virtual, por, teoricamente, não haver a tecnologia necessária. Esse, inclusive, é um dos maiores enganos: achar que só podemos criar experiências gamificadas com uso de tecnologias digitais. Pelo contrário, você pode aplicar nas pequenas coisas: criando estratégias de feedback mais interativo e constante ou até mesmo informando quanto falta para a finalização da tarefa ou do curso, a partir da entrega de cada atividade.

Um exemplo disso é o próprio Linkedin, que costumava ter muita dificuldade para engajar as pessoas a concluírem seus perfis e resolveram isso de uma forma muito simples: através de uma barra de progresso. Agora, conforme completamos nossas informações, a barra preenche automaticamente informando em que etapa do processo estamos e o quanto falta para acabar.

Por fim, pense em como a experiência do seu aluno pode ser significativa e intuitiva através dos processos de gamificação que você irá definir, tudo isso dentro do seu ambiente de aprendizagem. O objetivo é engajar e motivar e não criar bloqueios e dificuldades. Se você perceber que o processo de gamificação é apenas um atrativo sem um propósito claro, avalie melhor e invista em outros tipos de solução.


Nessa série, nós já falamos sobre como os games funcionam e como se dá a aplicação da gamificação em outras áreas da vida, principalmente no EAD. No último artigo detalharemos o plano de aula gamificado, com o objetivo de auxiliar os professores a colocarem essa tática na prática. Acompanhe!