Ainda sem respostas sobre sua legalização ou ilegalização, seguimos frente a uma situação que aos poucos se perpetua no Brasil: a educação domiciliar. Pelo menos 7.000 famílias apoiam a prática e estimulam a educação de seus filhos em casa. Certamente compreendemos como uma situação bastante peculiar e até mesmo distante de muitas realidades, tendo em vista que na maioria das famílias os responsáveis diretos das crianças necessitam trabalhar fora, tornando a escola também um espaço de cuidados e segurança.

Para aqueles que conseguem organizar suas vidas e rotinas, tem-se essa experiência domiciliar como opção e como um formato mais personalizado de aprendizado. No artigo anterior, compreendemos mais a fundo os prós e contras desse ensino familiar. Neste, vamos abordar formatos de educação domiciliar e como famílias e demais entusiastas se organizam para tal prática.

Há, sim, muitos desafios, mas há também grandes ganhos com essa proposta educacional. Assim como é dever da escola ensinar, também é direito e dever da família. Assunto polêmico, abarcado de vieses e estímulo para diversas discussões acerca da educação e os papéis de cada indivíduo na sociedade.

Aprendizado desagregado, integrado e convergente

A escola tem um papel social demasiadamente importante para nossa sociedade passada e atual. Foi fundamental para a emancipação de comunidades, organizações institucionais e fomentadora de novas práticas, funções, cargos etc. Através dela, milhares e milhares de pessoas alcançaram suas independências intelectuais, assim como novos objetivos, e puderam enxergar suas vidas através das lentes culturais que só o estudo é capaz de proporcionar.

Porém, nosso contexto atual complexo e volátil não comporta mais os formatos tradicionais da instituição educacional. Ainda, apesar das mudanças e renovações, ela funciona através de caixinhas, as disciplinas, cada uma com o papel de ensinar um conteúdo específico. Muitas vezes descompartimentadas de outras disciplinas e desconexas da realidade. Os muros da escola têm sido tão firmes que é difícil enxergar através deles.

Nossas necessidades têm sido cada vez mais individuais, particulares e precisam ser vistas e pensadas através da personalização. A escola não tem conseguido lidar com tantas particularidades e, mais ainda, conectar todo aprendizado às mais variadas realidades. Para muitos, o ensino ainda é pautado unicamente no conteúdo, desacreditando habilidades e competências necessárias para lidar com os desafios do dia-a-dia.

Práticas a partir das experiências e evidências estão sendo debatidas nos cenários educacionais, mas ainda muito distantes das salas de aula. Ainda há uma grande questão que circunda os grupos de debates: o que acontece ao longo da vida do aluno, durante seus anos escolares, que elimina sua criatividade e vontade de aprender coisas novas? Todas as crianças são extremamente curiosas, criativas e inventivas, mas durante sua jornada estudantil algo acontece. Seus ímpetos e vontades são bloqueados e o desejo por aprender se perde nesse tempo e espaço educativo.

A escola ainda não lida com o aprendizado como algo desagregado, integrado e convergente. Simplesmente o coloca dentro de caixinhas e o compartimenta em disciplinas, provas e notas. O que está acontecendo durante esse processo? Onde fica o aprendizado puro e verdadeiro?

Essa tem sido a grande questão que impulsiona famílias a tirarem seus filhos de ambientes institucionais e os ensinarem de forma única. Todo esse aprendizado acontece de modo desagregado através de diferentes agentes e meios. São as experiências, vivências, momentos e oportunidades que impulsionam o ensino e o aprendizado. Da mesma forma, se integram e não buscam como objetivo definir se o que se estuda é português ou matemática. Há algo muito maior: compreender como se conectam e transversalizam na medida em que o “aluno” se apropria dos conhecimentos e os transforma em saberes. Assista o vídeo abaixo e entenda, através da fala de Logan LaPlante, o que significa uma educação domiciliar:

Todas essas conexões não são simples e dificilmente dependerão apenas da família. Há um conjunto de fatores que contribuem para essa convergência de informações e conhecimentos para que se transformem em saberes e aprendizados. É possível contar com uma rede de apoio, muitas vezes bastante solidária, que auxiliará nessa jornada.

Grupos de estudos e o papel da videocolaboração

Já existem diversas ações para apoiar as famílias que desejam educar seus filhos em casa. Dentre algumas, podemos citar grupos de apoio e plataformas de ensino. Ainda assim, não contamos com um documento norteador que oriente as melhores práticas dessa educação ou que seja responsável pelo acompanhamento e avaliação. Sabemos, também, que isso não existe em função da prática não ser legalizada no Brasil.

De todo modo, é possível contar com professores que se especializam em tutela e atuam como mestres responsáveis pela educação de um indivíduo apenas. Infelizmente, grande parte da população não consegue arcar com tal investimento. Nesse ponto, pode-se pensar nos grupos de estudos ou até mesmo na educação remota.

Ter um professor que se conecte com uma rede de tutorados e os acompanhe ao longo de sua jornada estudantil garante qualidade e excelência em seus estudos. A videocolaboração para esses casos pode ser grande aliada. Possibilita a democratização desse ensino personalizado e ainda assim domiciliar.

Esse é um dos pontos de destaque e debate quando abordamos a temática do homeschooling. Grande crítica está sobre a falta de socialização e convívio com outros indivíduos. No entanto, dentro do ambiente familiar a criança já convive com outras pessoas, seja com a própria família, amigos, grupos de estudo ou em viagens e passeios feitos.

É preciso pensar na tecnologia, nesses casos, como propulsora para a qualificação desse movimento. E, com isso, atuar simultaneamente com a personalização do ensino. Um aspecto que precisa ser constantemente pensado é as formas como os educandos trocarão experiências, informações e se relacionarão com outras pessoas. Com uma proposta bem pensada e vinculada aos aprendizados, é possível utilizar a videocolaboração como esse meio que aproxima as pessoas, qualifica a educação e fomenta cada vez mais os grupos de estudos.


Pensar constantemente nossos formatos educativos é um grande desafio, principalmente quando perpassam os muros escolares. Responsabilizar-se pelo aprendizado de outras pessoas é algo de grande responsabilidade. Nem sempre a família dará conta, será preciso uma rede de apoio que colabore e auxilie nas principais demandas.

Ainda mais quando falamos de uma sociedade onde a cidadania global se faz  extremamente presente. É necessário uma reflexão profunda quanto a decisão de tutorar os próprios filhos ou promover uma educação independente. Seja na escola ou em casa, deve-se pensar constantemente nas implicações e consequências presentes diante toda e qualquer escolha.

Fonte da imagem de capa: Pexels